Quem sou eu

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Não ofereço tanto perigo, pelo menos não à primeira vista... Sou complicada, mas também sou bem simples! Depende do ângulo de quem observa, depende do referencial... Sou, mesmo, a personificação da constante contradição! Sempre sincera, sei bem que a verdade é meu defeito e minha virtude! Sinto, falo e depois penso, necessariamente nessa ordem! Gosto de gente, do meu trabalho, de desafios, de rodas de violão, de baladas intermináveis, de teatro, do sossego da minha casa, de cinema, de estudar, de passar as noites em claro, de dormir de dia, de música boa, de comida boa, de bebida boa, gosto de viver a vida! Tudo o que eu faço é com paixão, por isso tem que ser prazeroso! Se você me conhece sabe do que estou falando... mas se ainda não me conhece, aproxime-se, puxe uma cadeira e vamos dar umas risadas, mas se prepare: de perto ninguém é normal...

quarta-feira, 25 de março de 2009

Interessante

Interessante é aquilo que nos chama a atenção... e Navidalha já tinha se esquecido disso.

Ela estava há dez anos casada com ele, Rolímpio: o marido exemplar (que tinha uma amante a cada verão, mas nunca deixava de cuidar das coisas). A história entre eles começou numa noite diferente, em que ela era o centro das atenções, justamente por que era diferente de tudo, era diferente do mundo...

O tempo passou e tudo ficou tão igual a tudo, as rugas, a força da gravidade, a intenção da vida já era tão outra que nem se encontrava mais no infinito de "prioridades" onde (agora) a pobre Navidalha tinha se metido.

Seu mundo girava em torno dele e dos filhos (quatro lindas crianças, três meninos e uma menina, que lhe tomavam todo o tempo com estrepolias) do almoço de hoje, da janta de mais tarde, da casa organizada, de tudo menos dela. Por isso nada que podia oferecer, nem a roupa lavada, nem a comida caprichada na mesa, nem o carinho antes do sono, nem o beijo de "bom dia" era interessante de fato...

Ela nunca se dera conta disso. Não era mais interessante...

Engraçado foi que no mesmo dia teve dois encontros com si mesma. O primeiro foi com uma amiga que lhe fizera lembrar de como era, de como tratava as coisas e pessoas, de como encarava o mundo... foi pra casa pensando em como havia mudado, mas fez questão de esquecer rápido. A experiência do dia lhe soou mais como um desabafo frustrado de uma encalhada que tentava jogar areia na sua vida perfeita do que uma verdade dura e crua.
Depois, quando já havia feito as crianças dormirem e de tudo pra apagar o que lhe haviam jogado na cara (tentando "fazer de conta" que nada acontecera e que sua rotina estava "nos eixos") ele lhe deu a bofetada fatal: ela se aproximou e deu um pitaco imbecil nas suas anotações do escritório... ele lhe perguntou, num tom um tanto áspero, se não havia nada de mais interessante a se fazer do que se meter nos assuntos de homem. Nada de mais a fezer... ela percebeu que não tinha mais vida própria, nem vontade própria, nem nada de próprio!!!

Pareceu uma grosseria, num primeiro momento... coitada, de tanto viver a vida alheia, ainda se ofendia quando lhe indagavam a respeito de sua própria existência. depois veio o tom de libetação: a partir daquele dia, ela voltaria a ser ela mesma, soberana e independente... i-n-t-e-r-e-s-s-a-n-t-e.

Não se sabe ao certo se ela conseguiu viver o seu casamento até o fim dos dias... mas que importa? O seu encontro consigo mesma fez dela uma mulher que ainda era fantástica, que ainda sabia ser, que não aceitava nada que a fizesse incomodada... Nossa... há quanto tempo já não se via no espelho frente a frente?

Encontros com os outros, ao acaso, são "lugar comum"... quando nos vemos a nós mesmos, verdadeiramente, é que vale a pena... isso sim dá história!

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