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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cheiro de sorriso

Coisas daquelas que ninguém sabe bem nem como, nem porquê...

Amor não tem textura, nem sabor. Carinho não tem barulho. Saudade não tem cor. Sorriso não tem cheiro...

Maria só percebeu que os sentidos não têm lá muito sentido no dia em que entrou na casa velha, quase abandonada há dois anos. Depois que a dona Luzia faleceu, ninguém mais teve coragem de entrar ali.

Maria se encheu de coragem de encarar as lembranças e entrou... abriu a porta, o rangido era o mesmo.
Abriu a janela e as cores do mundo tomaram a sala, ela quase conseguiu ver-se correndo e saltando no colo da avó. A cadeira de balanço ainda estava no mesmo lugar.

Agora ela viveria ali. Precisava de um canto para morar, há pouco voltou pra sua cidadezinha... um diploma e um regresso.

A mudança arrumada, sem mexer muito na decoração da casa, fazia sentir como se não estivesse só. Deu vontade de fazer bolo. Os ingredientes comprados na venda, como se nada fosse diferente (mesmo depois de tanto tempo), logo viraram massa no forno e delícia no prato de quem cantarolava uma cantiga esquecida nos anos fora.

Mais uma lição de dona Luzia, tão sábia, tão presente...
Amor é macio e doce. Carinho é canção de ninar. Saudade tem cor de morango. Sorriso tem cheiro de bolo...

O Salto

Sentava-se como num ritual de obrigação, a mesa mal posta pro café da manhã apressado, olhava pro pão "dormido" e nem tinha muito apetite. Na verdade não tinha nem tempo de lembrar como foi bom estar ali, um dia... não era aquela mesa, nem aquele café solúvel, nem a margarina de semanas.Quase nem se lembrava mais do sabor da manteiga no pão quente.

Tomava o primeiro ar do dia já na rua, na correria nunca podia abrir a janela do apartamento minúsculo, escuro, sem nada de pessoal. O ônibus lotado, o balcão da loja, gente que veio "só dar uma olhadinha", a comissão pequena, a louça pra lavar e mais um final de semana já estava chegando. Era sexta-feira, novamente.

Se perdeu no horário enquanto pensava na rotina, saiu correndo e se pendurou no cano da condução, abriu a porta pesada, abriu o caixa, cupriu seu ritual. Cumpriu o horário. O corpo cansado de um dia daqueles, de uma semana inteira, de uma eternidade!
Uma cervejinha? Hum, quem sabe? Já estava lá: o bar...
As pernas frágeis da mesa de ferro sem equilíbrio nas pedras da calçada, as colegas de trabalho que não eram amigas, o pandeiro que batia uma música que ela detestava, a paquera com o cara que não era aquele... o toque que não deu arepio, o abraço que não deu amor, os beijos que não têm carinho, a noite que não descançou, a manhã que não tinha ninguém.

Sentada à mesa mal posta pro café sem pressa, não tinha nem o pão "dormido" (e nem tinha apetite nenhum). Na verdade, não tinha nem nada pra querer lembrar, nem pra querer viver, nem pra querer querer.
A janela! Foi até ela e resolveu espiar o mundo... a janela aberta, depois de tanto tempo... asas pra voar.