Quem sou eu

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Não ofereço tanto perigo, pelo menos não à primeira vista... Sou complicada, mas também sou bem simples! Depende do ângulo de quem observa, depende do referencial... Sou, mesmo, a personificação da constante contradição! Sempre sincera, sei bem que a verdade é meu defeito e minha virtude! Sinto, falo e depois penso, necessariamente nessa ordem! Gosto de gente, do meu trabalho, de desafios, de rodas de violão, de baladas intermináveis, de teatro, do sossego da minha casa, de cinema, de estudar, de passar as noites em claro, de dormir de dia, de música boa, de comida boa, de bebida boa, gosto de viver a vida! Tudo o que eu faço é com paixão, por isso tem que ser prazeroso! Se você me conhece sabe do que estou falando... mas se ainda não me conhece, aproxime-se, puxe uma cadeira e vamos dar umas risadas, mas se prepare: de perto ninguém é normal...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ataúlpho

Ataúlpho Pontual, até no nome, seu criado! Assim se apresenta o jovem rapaz, barbeiro de mão cheia, Ataúlpho Gomes Pontual: Pontual da família de Seu Joaquim, Gomes da parte de Dona Gertrudes. Todos se esmeram com o horário, pois sabem da fama de intransigente que tem o moço, não perdoa nem cinco minutinhos.

A história de sua vida começou a ser escrita no casamento de seus pais... Gertrudes já tinha mais de três anos de casada quando conseguiu engravidar, a família toda cobrando, o Joaquim pressionando, as apostas na mesa... alguns achavam que a moça era "impossibilitada", outros culpavam o desempenho do marido. Especulações à parte, a esposa havia engravidado, finalmente! Antes tarde do que nunca!

Nove meses passados, a conta do médico bem certinha, a barriga imensa com o neném encaixado e nada! A semana passou como uma eternidade. Todos diziam que era para ter calma, que isso é normal e logo nasceria o menino. O problema é que logo passou a semana, mais uns dias e mais alguns... o parto já tinha sido ensaiado inúmeras vezes, as malas prontas, as chaves do carro bem à mão... e nada.

Engraçado foi quando completou-se duas semanas de atraso e Gertrudes eufórica fez o marido levantar-se no meio da madrugada para correr à maternidade, "eram as contrações"... eram gases! Foi piada no hospital e logo toda a pequena cidade já sabia do acontecido... uma lástima.
Três semanas e cinco dias decorridos da data limite estimada pelo obstetra e resolveram pela cesária, era impossível esperar mais!

No mais, tudo aconteceu como em qualquer família normal, exceto pelo fato de que o menino era meio devagar. Andou aos dois anos e falou aos três. Nenhum exame, nenhuma avaliação e nenhum médico encontraram problemas: era uma criança normal. Mas o fato é que tudo com ele era depois, bem depois do esperado.

O tempo foi passando e, depois de perder várias namoradas que não suportaram as horas de espera no portão - nem os atrasos que fazim perder a seção daquele filme esperado por semanas - Ataúlpho encontrou Engrácia, moça de família, muito bonitinha e doce. Namoraram por sete anos e foram ao altar.

No dia do casamento estava tudo perfeito. A festa foi tão linda que os convidados nem comentaram muito o fato de que a noiva já chorava no altar, se julgando abandonada, quando o noivo chegou (uma hora depois do combinado).

Após anos de compromissos perdidos, chegadas à maternidade com filhos nascidos e diversas demissões por justa causa (com base nos atrasos), Ataúlpho resolveu dar uma guinada e retomar as rédeas de sua vida: fez um curso de barbeiro, abriu seu negócio próprio na garagem de casa e o principal ADIANTOU seu rológio em uma hora. Nunca mais chegou atrasado a nada e ainda trepudia de fregueses "não tão britânicos" com a palqueta afixada com cuidado no fundo da barbearia, que tem os seguintes dizeres em letra dourada: "O senhor sabe que está atrasado?"

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